28/12/2011

simplicidade

A definição mais simples e utilitária de transsexualidade provavelmente não irá mais além do que isto: são as pessoas a quem foi atribuído um género à nascença, e que precisam de efectuar uma transição (social, clínico-biológica e legal) para o outro, de forma a poderem alcançar um mínimo - pelo menos - de qualidade de vida efectiva.

É simples porque não tem um posicionamento de base quanto ao género e aos papéis, mas antes a como o indivíduo os vive, e neles se pode melhor posicionar. É útil porque nos permite identificar quem precisa da transição; e quem é afectado por uma série de exclusões e disprivilégios que exigem a intervenção de um movimento representativo.

E, de certeza, a palavra mais importante de todas na definição do primeiro parágrafo é: efectiva.

15/12/2011

como diria o outro

…a transição é um jogo cujo melhor prognóstico vem no fim.

Desconfiem impiamente de quem postula que se pode decidir a partir de uma checklist pueril de traços de personalidade; que não importam tanto o caminho e o balanço final de qualidade de vida, como um vago sentimento de si.

A transição é, em mais sentidos que um, uma viagem. E, como em qualquer viagem, importa o veículo, o trajecto, um bom mapa, as paragens e provisões. Não se pode prever cada buraco ou mancha de óleo, mas é bem menos provável que acabemos colados aos rails. E, sobretudo, importa que o destino seja de facto mais apelativo do que a cidade que deixamos para trás. Se não o conseguimos garantir com alguma confiança, então, bom, guardemos a gasolina para outro dia.

reise, reise, fahrvergnügen

Olho para trás, penso nas dificuldades, dores e marcas da transição na minha vida. O tempo, quase infinito enquanto durou, até ter algo de tão básico quanto um nome; as fobias e preconceitos dos outros - até daqueles que também disso provam uma (outra) fatia; a ansiedade, o virar a esquina sem ter a certeza que o passeio continua para além dela; a energia esgotada a cada dia, e reinventada no seguinte; o planeamento meticuloso de coisas que seriam absurdamente simples de outra forma. E, no fim, pergunto-me, valeu a pena?

Olho então ainda mais para atrás, ainda antes de iniciar a transição. Vejo-me sem amigos, sem ocupações ou distracções, sem companheira nem afecto, sem iniciativa, volição ou esperança. Sem perspectiva de um futuro, a não ser um quase tão escuro e frio como talvez a morte seja. Juntamente com todos os frutos amargos que caíram aos meus pés, colhi também tudo aquilo de bom e suave que tenho hoje: um lugar, amizade, amor, e, sobretudo, o sentimento que a estrada continua para a minha frente, para além do horizonte, e talvez um pouco mais longe ainda.

De qualquer perspectiva que olhe para a questão - emocional, lógica, económica, identitária - a resposta é um óbvio, orgulhoso e irredentível sim :)

nome

A 15 de Março, foi publicada em DR, entrando (imediatamente) em vigor, a Lei 7/2011, ou, mais familiarmente, a Lei de Identidade de Género. Entre outros issues posteriores, a maioria das Conservatórias do Registo Civil, local de entrega e decisão sobre os requerimentos para a mudança do sexo e nome legais, ainda não tinha decidido como interpretar ou aplicar a lei. Infelizmente, o processo de ‘clarificação’ desenrrolou-se depois da entrada em vigor da Lei, não antes; mesmo assim, ainda com alguns soluços e incertezas.

Numa sexta-feira relativamente solarenga, dirigi-me à conservatória para marcar o dia de entrega do requerimento. Na segunda-feira seguinte, fui lá deixá-lo. Nesse mesmo dia foi deferido, emitida a nova certidão de nascimento, e, com ela, requisitado o cartão de cidadão actualizado. Fui buscá-lo cerca de uma semana mais tarde. E - finalmente - passei a ser também na documentação quem eu já era na realidade há muito tempo.

Não está inteiramente dentro das minha capacidades de expressão descrever o que senti nesse momento. Hoje, ainda não muito tempo depois, já não consigo imaginar como consegui viver os últimos anos da minha vida não sendo a Luísa no papel; já não me lembro completamente de todos os expedientes que inventei do nada para ir sobrevivendo, aguentando. Não se esgotam aqui todos os meus problemas, nem os de mais outros 3,000 cidadãos portugueses; mas esta é a nossa maior vitória legal e social de sempre.

Agora já existimos; já começamos a ser, nem um pouco que seja, cidadãos.

11/12/2011

ressurreição


foto: fresco do convento de san pietro perugia

O Poppies tem estado descaradamente preguiçoso desde Fevereiro último, não muito tempo depois de escritas cá as primeiras linhas. Era minha intenção mantê-lo bastante mais actualizado; na verdade, continua a sê-lo. O interlúdio acaba hoje e agora.

À laia de desculpa, deixo a verdade: foi um efeito do culminar do objectivo principal do meu trabalho activista dos últimos cinco anos, a entrada em vigor da Lei de Identidade de Género, e que trocou as voltas à minha vida pessoal. Mas no melhor dos sentidos.

19/07/2011

just kiss the thetan in the cheek and it'll be alright

Um meta-comentário breve, para marcar o interregno do Poppies que se deve ao facto de ter uma nova vida*:
* - algumas das minhas citações foram abridged.

21/02/2011

debate 'lembrando gisberta 2 - no limiar da lei de identidade de género'

Vou ser oradora próximo dia 25, sexta-feira, no debate 'Lembrando Gisberta 2 - no Limiar da Lei de Identidade de Género', coorganizado pelo GRIT e UMAR.  Em 2009, organizei com o GRIP - Grupo de Reflexão e Intervenção do Porto - o primeiro debate 'Lembrando Gisberta'. Apontamos a falta da Lei de Identidade de Género como o núcleo das exclusões que ditou a vida e morte de Gisberta Salce Júnior, a mulher transexual brutalmente assassinada em 2006 por um grupo de adolescentes na cidade do Porto. Em 2011, estando a LIG aprovada pelo Parlamento e prestes a entrar em vigor, continuamos a não querer que o nome de Gisberta seja esquecido.

Ao meu lado vai estar o dr. Nuno Carneiro, psicólogo clínico, investigador e activista LGBT independente. A moderação está a cargo da feminista UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta - e o local é o Auditório do Clube Literário do Porto, na Rua Nova da Alfândega, n.º 22 (perto da Ribeira e estação de S.Bento). O debate começa às 21h30, com entrada livre.

No dia seguinte, 26, vamos prestar homenagem à Gisberta no sítio onde foi encontrada morta. O ponto de encontro é a estação de metro do Campo 24 de Agosto. Qualquer pessoa é benvinda e pode participar, e não tem de fazer nada de especial tirando acompanhar-nos. Venham tod@s mostrar à Gisberta que, não, ela ainda não foi esquecida.

uma tarde no parlamento

Cheguei a Lisboa ao início da tarde, e apanhei o metro de Sta. Apolónia até ao rosa Largo do Rato. Dez minutos e uma rua ligeiramente íngreme depois, cheguei à Assembleia da República. Entrei e sentei-me nas galerias, mesmo por trás da bancada do PP e PSD. Consegui, confesso, ver o facebook aberto no terminal de um(a) qualquer deputad@ que já tinha saído e não chegou a voltar.

Não sabendo o tempo que iam demorar as declarações políticas agendadas para antes da votação da Lei de Identidade de Género (LIG), decidi não arriscar, e acabei por esperar mais de três horas até que o momento chegasse. Pelo meio, tive a companhia de várias turmas de alunos do liceu. Quando chegou a hora, o meu coração começou a bater um pouco mais rápido

Era a recta final de cinco anos de trabalho para a LIG, que tinham começado em 2006 quando fundei o GRIT - em 2007 começou a colaborar com a Associação ILGA Portugal, e em 2011 voltou a adquirir a sua independência. É de alguma forma curioso olhar para trás, e ver o que aprendi, vivi, pensei, viajei e fiz, as pessoas e coisas que conheci, as desilusões que me desanimaram, e as sortes inesperadas que me inspiraram. Pensava no início que este dia teria chegado mais depressa; essa era talvez uma altura mais simples em que muito menos me era dado a conhecer.

Gostei claramente das declarações de José Soeiro do BE, João Oliveira do PCP, José Ferreira do PEV e Ana Catarina Mendes do PS, em apoio à LIG e aos direitos humanos mais fundamentais das pessoas transexuais. Senti-me profundamente desiludida com as de Francisca Almeida e Isabel Galriça Neto, que reconheço como mulheres como eu, mas cujos partidos não mostraram vontade de retribuir o reconhecimento - ou, de facto, a minha cidadania, com todo um conjunto de direitos que muito provavelmente nunca tomaram por menos de garantidos. Senti um aperto indescritível - um aperto óptimo e maravilhoso! - quando foi anunciado o resultado da votação.

Tirei uma foto, meti-me no comboio novamente, e voltei para casa com uma sensação de missão cumprida.

25/01/2011

independence day


"O GRIT - Grupo de Reflexão e Intervenção sobre Transexualidade vem, por este meio, anunciar a sua desassociação da Associação ILGA Portugal, dentro da qual tem desenvolvido o seu trabalho desde há mais de quatro anos, no quadro de Grupo de Interesse da mesma, constituindo-se como unidade autónoma e independente.

O GRIT é o primeiro e único grupo português dedicado exclusivamente à luta pela igualdade e pelos direitos da população transexual, e constituído apenas por pessoas transexuais. Iniciou a sua actividade em 2006 e, desde então, tem vindo a desenvolver vários projectos para denunciar e combater as violações dos direitos das pessoas transexuais.

Consideramos estar na véspera da maior conquista de sempre em Portugal para esta população: o reconhecimento da nossa identidade e cidadania, através da criação de uma Lei de Identidade de Género. Este tem sido o principal objectivo do GRIT, que tem trabalhado para garantir uma representação da população transexual junto aos partidos políticos, à Assembleia da República, e ao Conselho da Europa. Desenvolvemos também documentação reivindicativa e informativa sobre transexualidade, promovemos debates, tertúlias e actividades lúdicas, bem como asseguramos a resposta e apoio directo à população transexual – e prometemos fazer ainda mais!

Acreditamos que esta conquista não é o fim da luta pelos direitos da população cujos direitos são a razão da nossa existência, mas antes o início. É nossa convicção que foi dado o passo necessário para que as pessoas transexuais se mobilizem num activismo próprio e centrado nas suas necessidades e direitos. Não basta a nossa identidade ser reconhecida. Precisamos também da igualdade a nível social e laboral, e no acesso a bens, serviços e educação. Precisamos de cuidados de saúde que sejam mais eficazes e céleres. Precisamos que os estereótipos sejam desconstruídos e derrubados. Precisamos que as pessoas transexuais sejam, tanto na lei como na sociedade, as iguais de quaisquer outras.

Só um activismo voltado exclusivamente para as necessidades e direitos da população transexual conseguirá alcançar todos estes objectivos. Sabemos que só as pessoas transexuais têm a capacidade e legitimidade para trabalhar e se pronunciarem em seu nome. Queremos dar-lhes o espaço onde, em contraste com outros, elas se sintam capacitadas e empoderadas para o fazer.

Apenas uma plataforma autónoma e independente dará a possibilidade aos movimentos transexuais de alcançarem a maturidade, e permitirá um novo fôlego no caminho até à igualdade. Já contamos com doze membros, entre homens e mulheres transexuais, e queremos, sobretudo, crescer – e que cada vez mais pessoas transexuais se juntem a nós nesta viagem com destino à igualdade!

Pelo GRIT,
Luísa Reis e Júlia Pereira

contactos
direcção luisa.dreis@gmail.com

14/12/2010

tertúlia 'reflectir a lei de identidade de género'

Amanhã às 21h, no Centro Comunitário LGBT (fica na rua de S. Lázaro, n.º 88, Martim Moniz, Lisboa), vou estar presente na tertúlia 'Reflectir a Lei de Identidade de Género', coorganizada pelo GRIT e pela rede ex aequo. Ao meu lado vão estar Júlia Pereira (GRIT), Sandra Saleiro (socióloga e investigadora), Duarte Cordeiro (deputado do PS) e José Soeiro (deputado do BE).

E o tema é, claro, o recentemente aprovado diploma de Lei de Identidade de Género, um dos direitos fundamentais há mais tempo reivindicado e trabalhado pelo GRIT. A entrada é livre, e contamos com a vossa participação!